De mãos dadas com o jovem Werther

Reparo, encaro e agarro, Sebastião…
Porque eu sofro, fujo e corro dessa maldição.
Depois saro (o que é raro) e falo em comunhão:
Tudo que é doce apodrece na tua mão!
Escorro (socorro!) as lágrimas até o chão.
Me vejo sozinho e imploro sincero perdão.

Mas se tanto faz, tanto fez, seu lugar é caixão.
Passado não salva; a boca tem gosto de desilusão.
Escarro no ralo, na rua e na convicção.
E o bonde que é vago é o estrago na contra-mão.
Por isso eu digo, repito e te aviso de ante-mão:
Mais fundo que o vale profundo é a solidão.

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caos, amor e tradição

Gosto quando chove.

As gotas límpidas do céu escorrem,

varrem a base das modernas construções.

Varrer o caos desse mundo não se pode

Está encrustado nas veias dos que aqui habitam,

juntamente com as inúteis tradições.

 

O amor, tal como o caos, esbarra em ideias.

São ilusões, ideais irreais e costumes!

Fomos ensinandos a amar de tal forma,

fazendo o amor precisar de platéia

e a cabeça entupir de estrume.

 

Gosto quando chove.

E direciono minha atenção:

Penso que o amor são as gotas límpidas que escorrem.

Vejo alguns debaixo de guarda-chuvas

enquanto eu corro, abro os braços e as recebo.

Percebo, então, que outros também correm.

 

Terão eles suplantado o caos das tradições?

Terão eles percebido o que é realmente o amor?

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Ele cometeu um erro e

Ela abriu a porta e deu um  novo primeiro passo. Estava de botas altas, capa de chuva e com as chaves da porta. As mãos tremiam tanto que não pode colocar a chave na fechadura. Abriu a porta jogou o molho de chaves no sofá e bateu a porta. Saiu para rua, estava com o corpo quente e com o coração já lhe subindo na garganta, sufocando o pouco ar que respirava. Olhou para os dois lados da rua antes de atravessar e começou a correr, fazendo com que as poças também participassem da sua redenção. Ela ria muito com toda aquela chuva na cara.

Olhava para as fotos e reconstituía mentalmente as sensações. Não podia evitar, soltava um risinho no canto da boca, um riso gostoso. Quando ele a questionava, ela lhe respondia com ternura verdadeira e a língua falaciosa “tava pensando na gente.”, colocando as fotos dentro da agenda. Não tava, é claro. Muito pouco pensava nele, era cômodo, meio barrigudo, cabeludo e no fim, não tinha muito que pensar. Podia resumir toda a relação em duas ou três memórias repetidas. Almoços apetitosos, pouco sexo e programas domingueiros.

Não havia nada de errado com a relação. Embora também não houvesse nada de espetacular. Mas a incansável tormenta da memória jamais a abandonaria. Mas como poderia? Quando se trata de uma memória personificada, uma imagem que tem cheiro, que tem gosto, que tem cara e que durante o sexo com ele, lhe puxa pelos cabelos, fazendo o riso gostoso ressurgir e o gemido sair. E o pior, percebia que quanto mais pensava nela, no seu imaginário secreto, automaticamente mais excitado ele ficava. Sem saber, mas sabendo.

Com ela fazia amor de olhos abertos, seria um pecado fechá-los. Já com ele, só conseguia no escuro e apertava os olhos do começo ao fim. Mesmo pensando nela, no fim acariciava os cabelos dele e o confortava sobre o peito. Sobretudo o respeitava. Se algum dia o traiu, foi só em pensamento.

Não teria porque dividir certas coisas com ele por melhor que se dessem. Provavelmente ele devesse pensar em alguma loira peituda de filme pornô. Ou pensaria em algum amor do passado? Instantaneamente pensou, considerando que ele pensasse em algum amor do passado, que sentia pena por ele não poder fazer amor com quem realmente queria. E agora sentia pena dela mesma. Virou-se de lado na cama e segurou o choro.

Obteve a consciência da impossibilidade de esquecer quando comparou as duas situações. O amor não concretizado e romântico. E ele, o amor concretizado e real. Meu amor de concreto, pensava.  Não esqueceria nenhum dos dois, mas só um lhe esquentaria a alma.

- Não gosto quando você mexe nessa agenda…

- Pare amor, to vendo umas coisas aqui…

- Eu sei que você sente algo por ela ainda.

Dor e paixão foram distribuídas por todas as suas células, arrepiou-se por toda a extensão da coluna. Ele nunca saberia o que ela sentiu nem se ela explicasse, nem se desenhasse, nem se fizesse um mapa. Nunca chegaria nem perto de entender o que ela sentiu. Mas ela estava conformada em viver de concreto e memórias. Não desejava nem esperava nada diferente do presente quando ele desistiu.

Não teve tempo de se despedir, ele se foi e ela julgou que ele havia cometido um erro. Ele, dois minutos depois, percebeu que havia cometido um erro e quis ligar. Preenchido de amargura e ciúme, e convencido de que se resolveriam, deixou para amanhã a ligação.

Na mesma noite ela ouviu o sons de buzina, olhou pela janela molhada um carro parado do outro lado da rua. Todo o mundo parou, tudo quanto é joelho tremeu, tudo quanto é saliva secou e a vista ficou turva. Pensou duas vezes com a mão no trinco. Foi aí que ele errou para ela poder acertar.

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Olha aquele cara

Começa pelo tempo que levou para notar que a ponta do sapato lhe incomodava devido o comprimento das unhas dos pés. Era necessário um alicate para podá-las. Não tinha a ferramenta. Procurou por toda a casa, debaixo do sofá, da mesinha da sala, atrás do móvel que segura a TV, nas prateleiras, gavetas, geladeira, microondas, lavadora, cama, espelho do banheiro, privada. Nada.

Como resolveria? Talvez novos sapatos. Quem sabe chinelas. Constrangeria as pessoas nas filas de supermercados, buffets e lotéricas. Todos passariam e diriam “olhe aquele cara! olhe o tamanho das unhas dele!” e certamente ele sairia correndo para dentro do pequeno apartamento com a respiração ofegante, encostado na porta, se certificaria que a trancou e buscaria dentro do cesto um par de meias brancas.

Suavidade. Meias brancas de algodão, tapando o sol com a peneira. Disfarçando a imperfeição. Tranqüilidade. Conseguiria viver dessa forma – colocando os dois pés sobre a mesinha da sala e ligando a TV – Só sabemos o que vemos e não vemos o que somos.

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Nada não.

Talvez fizesse tempo que sonhasse,

Talvez fizesse tempo que vivesse

Se num súbito momento refletisse

Cuspiria o amor que engoliste

E a alma padeceria pra sempre

Talvez, seria menos se partisse

Talvez, sofresse mais se tentasse

Mas cumprindo a parte que cede

Que corrompe e intercede

A demora do teu voltaste

Talvez eu me rendesse

Talvez eu te acusasse

Faria até macumba

Pra sair desse impasse

Talvez eu te prendesse

Talvez teu pulso amarasse

Tossiria na sua face

As porcarias que fumasse

Talvez no fim eu morresse

Talvez só levitasse

Ou enlouquecesse

E no fim eu te falasse

.

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150 dias

- Ele se negou a receber o carteiro. E pela segunda vez essa semana. Já vieram dois tipos de entregador e ele não quer nem saber.

- É mesmo?

- Onde já se viu?

Abriu a porta e aproximou-se das duas criaturas falantes.

- Que tal vocês se ocuparem com a vida de vocês?

- Não… A gente só tava comentando, não to preocupada.

- Me admira. Você que é tão cristã. Que tal parar de se incomodar com a vida alheia e aprender com o criador a não julgar o próximo?

- E o que é isso que você está fazendo agora?

- Mas eu não acredito no criador.

E partiu para o elevador. Entrou, apertou o botão do décimo sétimo andar e esperou a porta fechar atenta a qualquer tipo de emissão sonora. Nada, somente o silêncio naquele hall de prédio. Assim que a porta fechou Morgana segurou sua testa e deu uma grande suspirada. Tremia um pouco o queixo e o pulso. Respirou fundo e olhou para os lados, ninguém ali, presenciando seu momento de vacilação. Décimo quinto andar. Passou a mão sobre os cabelos a fim de arrumá-los ou desarrumá-los. Posicionou a bolsa de lona marrom sobre o ombro direito e continuou a espera. Já estava arrependida, não era do seu feitio tratar as pessoas da forma com que tratara as duas senhoras no hall.

Chegou ao andar de destino e tocou a campainha. Esperou, cruzou as pernas. Descruzou as pernas, trocou a bolsa de ombro, colocou a mão esquerda no bolso. Cruzou as pernas. Tocou a campainha novamente. Depois de mais algumas cruzadas e descruzadas de pernas, pode-se ouvir sons de passos vindo em sua direção. Abriu a porta com o costumeiro ar de chateação.

- Arthur! – abraçando com força e cravando de leve as unhas nas costas dele.

Arthur tentou esboçar um sorriso, sem os dentes, mas curtindo verdadeiramente aquele abraço.

- Eu tenho que te mostrar!

- Eu tava com saudades.

- Eu também. Vem, entra.

A porta fechou-se, os dois passaram pela lavanderia, cozinha, sala de estar até finalmente chegar ao cômodo que realmente importava. O escritório. Para Morgana não havia lugar mais aconchegante que o escritório de Arthur. Sua mesa era simples e de madeira escura com poucos objetos sobre ela. Um canivete suíço de cor vermelho-bordô, uma pena e um tinteiro que eram de fato usados, um bloco de papéis em branco, uma pequena bandeira do Marrocos e um óculos pousado sobre uma pilha de livros classificados como “O imprescindível”.

Dessa pilha, Arthur só havia compartilhado um. Argumentava com Morgana, em sua pequena ânsia pelo conhecimento, dizendo que o tempo dos outros ainda haveria de chegar. Pedia-lhe paciência. E ela entendia, abraçava com força o livro que lhe fora concebido daquela pequena pilha especial.

Morgana sentou-se na poltrona antiga de cor bordô, enquanto Arthur colocava mais lenha na lareira. O ambiente era ocupado pela luz quente e amarelada do fogo, tornando seu lugar preferido em perfeito. Enquanto esfregava o palmo das mãos sobre as coxas, a fim de esquentá-las ou de extravasar a ansiedade, sentia o ambiente esquentar e lhe subir a vontade de tocar no assunto. Ou de tomar um bom vinho. Tentou por duas vezes e a voz lhe foi travada no meio da garganta. Arthur a olhou, com a curiosidade ímpar de um artista.

- Nada.

- Fale…

- Não… Eu não deveria falar disso com você.

- Ah, não… Não me diz que você vai falar daquilo…

- Na verdade vou, você não deixou o carteiro entregar as correspondências? De novo?

- Sim, eu deixei. Mas não, não pude.

Morgana olhou fundo para aqueles olhos foscos por detrás das lentes redondinhas.

- Não pude. Eu não quero ver.

- Mas o azar é só seu. Você tem que assinar aqueles papéis.

- Quem é você para dizer o que tenho que fazer? – Com a voz grave e rude.

Ela baixou os olhos e respirou, ou pelo menos tentou respirar. Duas gotas caíram sobre as coxas e ele virou em direção à lareira, mirando o fogo como se visse o além. Depois de alguns segundos, levantou o rosto, passou delicadamente a ponta do dedo debaixo dos olhos, limpando qualquer evidência de sobressalto. Sentia-se péssima, insegura e o clima amarelado do quarto já não era tão bom.

- Você está certo. Eu não sou ninguém para lhe dizer alguma coisa.

Arthur escutou com atenção, ela conhecia de longe seus trejeitos, mas continuou virado para a lareira.

-Vamos começar?

- Sim… – Ainda desanimada.

- Em que capítulo parou?

- Capítulo 65 “A renovação da águia”.

- Estou incerto sobre esse título.

- Por quê?

- Renovação. Não sei, não sei. Essa palavra não me apetece. Mesmo porque a renovação da águia dura mais de cento e cinqüenta dias severamente dolorosos. Por que esse simbolismo positivo sobre a renovação? E nem é renovação, bem dizer, quer dizer, não é uma fênix. É uma águia. Além do mais, renovar é uma merda.

- Eu acho bom.

- Que tipo de renovações você faz? Troca a marca do shampoo? Estou falando de grandes renovações.

- Você tá preso ao velho, ao que ta podre e não presta. Quando é que você vai parar e perceber?

Arthur anda pelo tapete central, pulando os de papéis brancos distribuídos em pilhas e blocos. Aproxima-se de um deles e entrega nas mãos de Morgana.

- Olha isso. Eu escrevi para você.

Morgana pega o grande maço de folhas inspiradas e suspira. Continuava desanimada, aquela fase triste dele parecia nunca ter fim. Começou a ler, sem muita esperança de surpresa, embora o título fosse um pouco melhor que os últimos trinta, que só falavam de morte e destruição. “Reflexo do nosso interior” é o que Morgana secretamente pensava.

Capítulo 65 “A renovação da águia”.

Borges suplantou os limites do eu e conseguiu liberta-se das amarras corrosivas do tempo da desilusão. Cento e cinqüenta dias. Contou todos eles, como uma meta estipulada, como um prazo, um deadline para sua loucura. Parou de fazer uso das pílulas, do whisky e da mescalina. Achou que isso o motivaria ou que acordaria em um dos cento e cinqüenta dias sentindo-se diferente. Durante todos os dias levantou-se igual. E como terrível e habitual malehumor da segunda feira de manhã. Nada mudou, seu castelo caiu e a sensação de melhoria não acontecia. (…) No dia D, Borges comprou uma corda e a amarrou ao pescoço. Subiu na cadeira sentiu como se houvessem dois pesos sobre ambas as mãos. Olhou para as duas e as pesou. Estava liquidado, fudido, sem grana, sem perspectiva alguma, sem a porra da ilusão que mantém a mente ativa, morrer seria apenas um detalhe naquela mísera e complexa história de amor. Que fora amor para ele, para ela, não se sabe. Vadia. Essa é a verdade. A mão direita de borges começou a cair, dando espaço para que a esquerda se manifestasse. Ela não tem culpa por querer o divórcio, afinal, todos merecemos ser felizes, não? E as duas mãos se equipararam novamente. Vadia. Borges tirou a corda do próprio pescoço ao perceber que não era ele quem deveria estar pendurado ali. E que a verdadeira razão para seu sofrimento com o divórcio foi o fato de ela ter tirado todos os seus bens, tirando também, seu prazer se degustar bons vinhos. Disso não abriria mão, nem morto. Recorreria se fosse preciso.

Arthur tirou os óculos e coçou os olhos prolongadamente.

- Vai,vai, me diz logo o que achou.

Morgana riu, também prolongadamente.

- Achei lindo.

- Achou? Como?

- Achando, achei lindo. Acho que é um bom começo para o seu capítulo.

- Vou pegar as taças.

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Viajante

Tudo era azul

À sombra dos caracóis,

Na estrada intemporal e fria.

Touxe o amarelo vibrante nas faixas,

Luz  penetrante dos faróis,

Numa audaciosa alegoria.

As mãos para fora do vidro,

Assoviando e existindo.

Trocando elogios mútuos

Com o vento em seu puro sentido.

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