- Ele se negou a receber o carteiro. E pela segunda vez essa semana. Já vieram dois tipos de entregador e ele não quer nem saber.
- É mesmo?
- Onde já se viu?
Abriu a porta e aproximou-se das duas criaturas falantes.
- Que tal vocês se ocuparem com a vida de vocês?
- Não… A gente só tava comentando, não to preocupada.
- Me admira. Você que é tão cristã. Que tal parar de se incomodar com a vida alheia e aprender com o criador a não julgar o próximo?
- E o que é isso que você está fazendo agora?
- Mas eu não acredito no criador.
E partiu para o elevador. Entrou, apertou o botão do décimo sétimo andar e esperou a porta fechar atenta a qualquer tipo de emissão sonora. Nada, somente o silêncio naquele hall de prédio. Assim que a porta fechou Morgana segurou sua testa e deu uma grande suspirada. Tremia um pouco o queixo e o pulso. Respirou fundo e olhou para os lados, ninguém ali, presenciando seu momento de vacilação. Décimo quinto andar. Passou a mão sobre os cabelos a fim de arrumá-los ou desarrumá-los. Posicionou a bolsa de lona marrom sobre o ombro direito e continuou a espera. Já estava arrependida, não era do seu feitio tratar as pessoas da forma com que tratara as duas senhoras no hall.
Chegou ao andar de destino e tocou a campainha. Esperou, cruzou as pernas. Descruzou as pernas, trocou a bolsa de ombro, colocou a mão esquerda no bolso. Cruzou as pernas. Tocou a campainha novamente. Depois de mais algumas cruzadas e descruzadas de pernas, pode-se ouvir sons de passos vindo em sua direção. Abriu a porta com o costumeiro ar de chateação.
- Arthur! – abraçando com força e cravando de leve as unhas nas costas dele.
Arthur tentou esboçar um sorriso, sem os dentes, mas curtindo verdadeiramente aquele abraço.
- Eu tenho que te mostrar!
- Eu tava com saudades.
- Eu também. Vem, entra.
A porta fechou-se, os dois passaram pela lavanderia, cozinha, sala de estar até finalmente chegar ao cômodo que realmente importava. O escritório. Para Morgana não havia lugar mais aconchegante que o escritório de Arthur. Sua mesa era simples e de madeira escura com poucos objetos sobre ela. Um canivete suíço de cor vermelho-bordô, uma pena e um tinteiro que eram de fato usados, um bloco de papéis em branco, uma pequena bandeira do Marrocos e um óculos pousado sobre uma pilha de livros classificados como “O imprescindível”.
Dessa pilha, Arthur só havia compartilhado um. Argumentava com Morgana, em sua pequena ânsia pelo conhecimento, dizendo que o tempo dos outros ainda haveria de chegar. Pedia-lhe paciência. E ela entendia, abraçava com força o livro que lhe fora concebido daquela pequena pilha especial.
Morgana sentou-se na poltrona antiga de cor bordô, enquanto Arthur colocava mais lenha na lareira. O ambiente era ocupado pela luz quente e amarelada do fogo, tornando seu lugar preferido em perfeito. Enquanto esfregava o palmo das mãos sobre as coxas, a fim de esquentá-las ou de extravasar a ansiedade, sentia o ambiente esquentar e lhe subir a vontade de tocar no assunto. Ou de tomar um bom vinho. Tentou por duas vezes e a voz lhe foi travada no meio da garganta. Arthur a olhou, com a curiosidade ímpar de um artista.
- Nada.
- Fale…
- Não… Eu não deveria falar disso com você.
- Ah, não… Não me diz que você vai falar daquilo…
- Na verdade vou, você não deixou o carteiro entregar as correspondências? De novo?
- Sim, eu deixei. Mas não, não pude.
Morgana olhou fundo para aqueles olhos foscos por detrás das lentes redondinhas.
- Não pude. Eu não quero ver.
- Mas o azar é só seu. Você tem que assinar aqueles papéis.
- Quem é você para dizer o que tenho que fazer? – Com a voz grave e rude.
Ela baixou os olhos e respirou, ou pelo menos tentou respirar. Duas gotas caíram sobre as coxas e ele virou em direção à lareira, mirando o fogo como se visse o além. Depois de alguns segundos, levantou o rosto, passou delicadamente a ponta do dedo debaixo dos olhos, limpando qualquer evidência de sobressalto. Sentia-se péssima, insegura e o clima amarelado do quarto já não era tão bom.
- Você está certo. Eu não sou ninguém para lhe dizer alguma coisa.
Arthur escutou com atenção, ela conhecia de longe seus trejeitos, mas continuou virado para a lareira.
-Vamos começar?
- Sim… – Ainda desanimada.
- Em que capítulo parou?
- Capítulo 65 “A renovação da águia”.
- Estou incerto sobre esse título.
- Por quê?
- Renovação. Não sei, não sei. Essa palavra não me apetece. Mesmo porque a renovação da águia dura mais de cento e cinqüenta dias severamente dolorosos. Por que esse simbolismo positivo sobre a renovação? E nem é renovação, bem dizer, quer dizer, não é uma fênix. É uma águia. Além do mais, renovar é uma merda.
- Eu acho bom.
- Que tipo de renovações você faz? Troca a marca do shampoo? Estou falando de grandes renovações.
- Você tá preso ao velho, ao que ta podre e não presta. Quando é que você vai parar e perceber?
Arthur anda pelo tapete central, pulando os de papéis brancos distribuídos em pilhas e blocos. Aproxima-se de um deles e entrega nas mãos de Morgana.
- Olha isso. Eu escrevi para você.
Morgana pega o grande maço de folhas inspiradas e suspira. Continuava desanimada, aquela fase triste dele parecia nunca ter fim. Começou a ler, sem muita esperança de surpresa, embora o título fosse um pouco melhor que os últimos trinta, que só falavam de morte e destruição. “Reflexo do nosso interior” é o que Morgana secretamente pensava.
Capítulo 65 “A renovação da águia”.
Borges suplantou os limites do eu e conseguiu liberta-se das amarras corrosivas do tempo da desilusão. Cento e cinqüenta dias. Contou todos eles, como uma meta estipulada, como um prazo, um deadline para sua loucura. Parou de fazer uso das pílulas, do whisky e da mescalina. Achou que isso o motivaria ou que acordaria em um dos cento e cinqüenta dias sentindo-se diferente. Durante todos os dias levantou-se igual. E como terrível e habitual malehumor da segunda feira de manhã. Nada mudou, seu castelo caiu e a sensação de melhoria não acontecia. (…) No dia D, Borges comprou uma corda e a amarrou ao pescoço. Subiu na cadeira sentiu como se houvessem dois pesos sobre ambas as mãos. Olhou para as duas e as pesou. Estava liquidado, fudido, sem grana, sem perspectiva alguma, sem a porra da ilusão que mantém a mente ativa, morrer seria apenas um detalhe naquela mísera e complexa história de amor. Que fora amor para ele, para ela, não se sabe. Vadia. Essa é a verdade. A mão direita de borges começou a cair, dando espaço para que a esquerda se manifestasse. Ela não tem culpa por querer o divórcio, afinal, todos merecemos ser felizes, não? E as duas mãos se equipararam novamente. Vadia. Borges tirou a corda do próprio pescoço ao perceber que não era ele quem deveria estar pendurado ali. E que a verdadeira razão para seu sofrimento com o divórcio foi o fato de ela ter tirado todos os seus bens, tirando também, seu prazer se degustar bons vinhos. Disso não abriria mão, nem morto. Recorreria se fosse preciso.
Arthur tirou os óculos e coçou os olhos prolongadamente.
- Vai,vai, me diz logo o que achou.
Morgana riu, também prolongadamente.
- Achei lindo.
- Achou? Como?
- Achando, achei lindo. Acho que é um bom começo para o seu capítulo.
- Vou pegar as taças.